7.12.2004

Another Green World

Vejo por aí muita gente indignada com a decisão de Sampaio, gente furiosa com a saída de Durão, gente deprimida com a nomeação de Santana para um cargo que, consideram, não está à altura. Vejo pessoas tristes com o triste fim do euro e com a nova época do nosso futebol, na qual o Sporting, que nada contrata, promete nada ganhar. Ouço dizer que vêm aí tempos duros e sombrios, dias de luta e turbulência, que é urgente cerrar fileiras. E outros insistem que é preciso manter o cinto apertado, que o mundo está perigoso e a democracia cada vez mais frágil. Aperta o calor e com ele os fogos; avança o Verão e aumenta o cansaço de um ano de trabalho, frustrante e mal pago, no qual, em qualquer caso, pouco se produziu. Os dias que correm mal e as noites de insónia, na véspera de novos dias que, pelo pouco sono da noite anterior, voltarão a ser maus, antes de noites piores. A televisão que é uma merda e os jornais que são cada vez mais sensacionalistas. Onde é que estão os grandes estadistas do passado recente? A chatice que é aquele gajo que passa a vida a telefonar para tentar impingir uma coisa que não serve para nada, mas que – coitado – está só a tentar safar-se no meio disto. Os livros que o Professor atira para a sua frente, enquanto, sobre eles, debita um comentário mecânico, não sentido, mas com o sentido da cunha cumprida. O Herman há muito transformado numa gaja ordinária, ostensivamente orgulhosa daquilo que é. Uma justiça em que já quase ninguém acredita, mais a crise, política, económica, social, de valores, dos valores e dos costumes.

Porém

O tempo passa. Os meses avançam; os anos, mais lentamente, também. As coisas mudam e as pessoas com elas. Surirao outras personagens e outras oportunidades. Melhorar-se-á, piorar-se-á, ficar-se-á na mesma; mas, no fim do dia, restará sempre a possibilidade de continuar a ouvir Another Green World.

Este disco - o terceiro de Brian Eno -, agora reeditado em versão genuinamente resmaterizada, é – e estou a medir bem as palavras – uma obra-prima da pop. Da música pop e da pop arte. O cenário sónico de um futuro bucólico. Um daqueles discos que, passado o presente e futuro próximo, continuará para sempre a ser ouvido.









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